Ratazona

Manifesto contra a bebida

Publicado em sociedade por Guss de Lucca em setembro 13, 2010

Manifesto de fato é uma palavra pesada, parece que falo em nome de um grupo organizado com ideias radicais sobre qualquer assunto – no caso, a bebida. Mas por falta de uma palavra melhor – repúdio talvez? – farei uso dela.

Como estou colocando esse texto num espaço público, sinto-me na obrigação de apresentar-me e justificar minha posição para aqueles que, mesmo não me conhecendo, sentirem curiosidade em lê-lo na íntegra.

Em três décadas de existência jamais coloquei uma gota de bebida alcoólica na boca – talvez essa seja a única parte radical desse “manifesto”, ou ao menos assim espero. Sei que é difícil de acreditar que alguém nascido em 1979 jamais tomou um porre na adolescência ou sequer sabe qual é o sabor de uma cerveja ou um vinho, mas o fato é que até hoje encarei meus problemas, inseguranças e dificuldades de cara limpa por opção.

Quando uso a palavra opção, descarto motivos que me “obrigariam” a assumir uma postura abstemia, como sofrer ou testemunhar abusos de um familiar alcoólatra, pertencer a algum culto religioso ou ser diagnosticado com problemas no fígado ou qualquer outro órgão. Não o fiz por nunca ter sentido o ímpeto de fazê-lo.

Talvez, e já me questionei muito quanto a isso, o real motivo seja não ter interesse em tirar meu cérebro do controle, em precisar nocauteá-lo por algumas horas para em sua ausência tomar atitudes que jamais faria sóbrio. Sempre que precisei vencer a timidez o fiz de cara limpa, da mesma forma que cometi diversos erros em minha vida, como me indispor com pessoas pelos motivos errados e transgredir a lei.

O bêbado, a meu ver, sempre utiliza o álcool para justificar atitudes que gostaria de tomar, mas não tem coragem de fazer em sã consciência. Como disse certa vez um de meus professores, parafraseando a tia de um amigo, “a bebida é o saca-rolhas da verdade” – nada mais certo.

Há quem diga que bebe para relaxar, que utiliza o torpor causado pelo efeito do álcool para aguentar um dia ou situação difícil. Esse também nunca foi o meu caso. Existem tantas maneiras de descansar a mente e o corpo, estimulando a produção de substâncias que não anulam o cérebro, como um bom prato de comida ou o próprio ato sexual, que nunca cogitei fazer uso da bebida para relaxar.

Tendo exposto um pouco da minha vida, dou sequência ao oitavo parágrafo desse texto explicando a minha oposição ao uso que as pessoas fazem da bebida. Em primeiro lugar, deixo claro que a meu ver apenas dois tipos de pessoas ficam bêbadas: as fracas e as idiotas.

O fraco é aquele que bebe por não conseguir lidar com uma situação difícil, seja depressão, medo ou insegurança. Já o idiota se embebeda consciente – e inclusive brada de peito cheio que o faz – para experimentar sua idiotia potencializada pelos efeitos do álcool.

Não é preciso fazer uso de pesquisas para saber que a maioria esmagadora dos bêbados do país pertence ao sexo masculino e está entre os 15 e 35 anos – jovens, por assim dizer. Não estou isentando as mulheres ou os adultos, mas esses costumam causar menos destruição do que os adolescentes, que não por acaso é o público alvo do mercado de bebida.

Aliás, é triste e ao mesmo tempo ridículo observar como essa parcela de bêbados costuma associar seus porres a rebeldia, como se o ato de embebedar-se fosse o mais contraventor possível diante do “sistema” – risos. Tudo que o “sistema” precisa para funcionar é que seus jovens gastem seu tempo e dinheiro enchendo a cara. Dessa forma eles não causam problemas – ou ao menos problemas que o “sistema” não sabe contornar, afinal, a polícia está aí para quê?

Tão estúpido quanto o bêbado revolucionário é o boêmio, aquele que utiliza princípios artísticos para justificar seu alcoolismo. É fato que alguns artistas geniais gostavam de tomar porres, mas não foram os porres que fizeram deles artistas geniais, mas a soma de fatores diversos, como talento, estudo e disciplina – a bebida, eu sinto dizer, não teve nada com isso.

Há quem beba por querer repetir comportamentos de outras gerações, tentando viver as loucuras de épocas anteriores a imagem de seus ídolos, e existe também aquela parcela que gosta de beber para testar seus limites, ver o quanto um organismo aguenta antes de sucumbir ao álcool.

Assim como os casos já citados, eles se encaixam no grupo dos idiotas, que invariavelmente se amparam em convenções sociais sem sentido, como a crença de que na juventude é preciso viver ao máximo e testando seus limites – caso contrário você não terá “aproveitado” – e frases de efeito (“eu bebo sim, estou vivendo…”).

Aliás, abrindo espaço para voltar a minha biografia, poucas coisas são mais patéticas do que ouvir pessoas “adultas” se vangloriando de seus anos de “juventude transviada”. Sinceramente não vejo do que se orgulhar se tudo o que uma pessoa fez se resume a uma sequência de atitudes vergonhosas estimuladas pela bebida. Mas como já escrevi, elas compraram a ideia do “aproveitar a vida” e ainda vivem essa ilusão – ninguém quer olhar para trás e assumir que foi um idiota e apenas isso.

Talvez eu devesse me orgulhar de nunca ter bebido, de nunca ter sucumbido a pressões de colegas e campanhas publicitárias – aliás, nunca encontrei as pessoas bem apessoadas das propagandas nos botecos do meu bairro. Mas eu não vejo mérito nenhum, pois não precisei me esforçar para fazê-lo e, se resolvesse me gabar, acabaria taxado de imbecil, afinal, vivo na sociedade que condena e denigre a pessoa que encontra dinheiro e devolve ao dono. Paciência.

Apesar de nunca ter bebido, durante muitos anos convivi com amigos bêbados e banquei a babá na ocasião de seus porres, apaziguando confusões em bares e levando-os em segurança até suas casas – certa vez cheguei a deitar uma amiga em sua cama, descalçá-la, cobri-la com o lençol e, a pedido, ficar conversando com ela – bêbada – até o sono chegar. Isso já não acontece mais. Há alguns anos resolvi abrir mão de todos os bêbados conhecidos, deixando-os a própria sorte, inclusive em casos extremos, como o de violação física – quis beber? Agora aguenta.

Antecipando e talvez evitando um mal entendido, quero deixar claro que não escrevi esse “manifesto” com a intenção de catequizar ninguém. Sou egoísta o bastante para não querer fazer parte do grupo majoritário e suficientemente pessimista para acreditar que a bebida nunca será encarada como o que realmente é.

Porém, se por um acaso alguma coisa nesse texto fez sentido para quem o leu, fico feliz em ajudar. Caso contrário, sinto muito. Ou melhor, não sinto é nada. O dinheiro, os neurônios e quiçá o cu são seus.

Antes de encerrar, uma pausa para fixar resoluções importantes:

Nada é mais clichê do que acreditar que beber: (1) é a melhor maneira de aproveitar a vida; (2) vai contra o “sistema”; (3) choca a sociedade; (4) enaltece sua masculinidade ou maturidade; (5) faz de uma pessoa um artista genial – nesse último caso, ou a pessoa é por talento, educação e esforço, ou não.

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